Choc,
choc, choc, choc...
A chuva caía sem piedade.
O medo intenso crescia. Para onde fugir?
Sua casa ainda estava muito longe. Olhava para trás, não conseguia ver
nada.
O vento cortava as árvores num barulho infernal. Apavorada, tremia dos
pés à cabeça sem saber o que fazer.
Bem a sua frente uma árvore caía, quase no mesmo momento em que passava.
A rua interditada oferecia pequeno espaço para passar. Com pressa e dificuldade,
transpôs o obstáculo.
Arranhada pelos galhos, estava em estado lastimável.
Meu Deus! Como chegar em casa?
As dores aumentavam, o sangue escorria manchando-lhe a roupa encharcada.
Saiu em disparada.
Sentia-se tão corajosa! Não tinha medo de nada! Ficara no baile até o
fim. Nem percebera que as horas se passaram.
Divertira-se como há muito não fazia. Despedira-se do grupo e de seu namorado,
que moravam na cidade, bem tarde da noite.
Sua amiga a convidara para que dormisse em sua casa. Não aceitou, pois
não avisara à mãe. Feliz da vida, dirigiu-se ao ponto de ônibus.
Esperou por um tempo, achou estranho não encontrar ninguém.
O vendedor de cachorro-quente avisou-lhe que o último ônibus da noite
partira há muito tempo.
Perdera o último ônibus! E agora?
Sentia o chão a lhe fugir. Parecia delírio, ela ali, sozinha no meio da
madrugada.
O caminho a ser percorrido era longo, cheio de curvas, sem asfalto, e
havia mato alto por todos os lados.
Os trovões rasgavam o céu e a tempestade continuava a cair.
O uivar do vento batia em seu rosto transtornado pelo medo. E se voltasse
novamente, dormisse na casa da amiga? Não sabia onde morava e, àquela
hora, todos deveriam estar dormindo.
Começou a ouvir barulhos estranhos, mas um era bem definido: choc, choc,
choc, choc, choc.
Alguém a seguia, não sabia quem, mas alguém a seguia! Apertava o passo,
o barulho aumentava no mesmo compasso!
A casa abandonada... Dava-lhe arrepios...
Não sabia o que fazer. Estava nas mãos do inimigo. Como enfrentá-lo? Quem
sabe no dia seguinte aparecesse nas manchetes dos jornais? Seria notícia
de primeira página! “Moça estuprada e morta”. Também poderia ser assim:
“Moça desaparecida. Quem souber notícias, favor entrar em contato com...”
Não sabia as intenções do inimigo. A cada momento poderia dar o bote.
Não raciocinava mais. O medo, até então desconhecido para ela, tomava
conta de todos os seus sentidos. Talvez estivesse delirando. Os trovões
rasgavam o céu impiedosamente.
A casa abandonada, seu grande desafio, aproximava-se. Seria atacada, arrastada
e, por mais que gritasse, ninguém a escutaria.
O pavor a dominava. Não havia nenhuma solução, senão avançar. A casa abandonada...
A casa abandonada...
Imaginava-se enfrentando o inimigo, tentando desvencilhar-se das garras
numa luta feroz e desigual.
A mãe lhe ensinara o tal golpe baixo, aquele que tira a força de qualquer
homem, seja lá qual for, alto, baixo, forte, magro. Sua mãe lhe dissera
que a força do homem é lá, naquele lugar. Faria exatamente como a mãe
lhe ensinara.
Imaginava a situação, a luta contra seu algoz e na hora “h” o golpe baixo.
Todas as situações prováveis lhe vinham à cabeça. Se não fosse somente
um? Quem sabe dois ou três?
Opções diversas de como reagir na hora “h” lhe vinham à cabeça. Por que
saíra tão tarde do baile? Por que não dormira na casa da amiga? Por quê?
Seu corpo parecia febril... Tanto medo!
Exatamente quando passava em frente à casa abandonada, espatifou-se no
chão.
Um enorme buraco a engoliu.
Tentava se levantar, não conseguia. Fazia um enorme esforço. Quanto mais
tentava... Desesperava-se.
Seu tornozelo doía terrivelmente.
Gritou por socorro e nada. Chorava de dor. Como chegaria a casa?
Depois de muitas tentativas, levantou-se com lentidão e, num choro compulsivo,
começou a caminhar vagarosamente e, novamente, o choc, choc, choc, choc,
num compasso vagaroso.
Foi então que percebeu seus sapatos encharcados e o barulho que vinha
deles ao caminhar.
Margot Carvalho
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