Dr.
Super sincero
Apenas com um frouxo roupão que mal lhe cobria as coxas, ela, impaciente,
esperava o médico, deitada na cama há mais de meia hora.
“Vamos começar, Verinha. Vamos começar, Verinha!”
A intimidade do doutor com a paciente dava a entender certa aproximação
entre os dois.
“Sinceramente, sinceramente, uma mama dessas! Sinceramente, sinceramente,
uma mama dessas!”
O marido, proibido de entrar, apurava os ouvidos, tentando compreender
o que se passava na sala de exames.
“Sin- ce- ra- men –te, quando aparece uma mama dessas, como dizem meus
colegas: só Jesus, só Jesus!”
Apalpa daqui, apalpa dali e o doutor: “Uma mama dessas? Só Jesus, só Jesus!”
A mulher balbuciava alguma coisa parecida com: “Mas, doutor...”
O marido, do lado de fora, não continha sua fúria. Por que o médico falava
tão alto aquela expressão?
Encostava o mais que podia o ouvido à porta. “Safado! Está cantando minha
mulher!”
“Só Jesus, só Jesus”, ressoava nos ouvidos do marido!
“Sinceramente, Verinha!”- dizia o médico. “Você precisa emagrecer! Só
Jesus! Estou exausto! Estou tão exausto! Sin-ce-ra-men-te.”
E a mulher novamente dizia coisas quase inaudíveis, que o marido não conseguia
distinguir.
“Deve estar gostando, a safada! Depois falam de crime passional! Como
um sujeito sadio pode aguentar uma afronta dessas? É preciso ter muito
equilíbrio!”
Imaginava mil coisas acontecendo dentro do consultório! Não que fosse
ciumento. Só cuidava do que era seu e a Verinha, como ele a chamava e
não admitia que outro o fizesse. Estava trancada com um homem chamando-a
de Verinha. A sua Verinha! Isso ele não admitia de jeito nenhum!
O marido saiu correndo dali, pois não queria arrebentar a porta para quebrar
a cara do sujeito! Tomou um café bem forte e, inquieto, ficou passeando
pelo pátio.
“Mas que demora é essa? Não é possível! Um simples exame não demora tanto!”
Lá dentro, entre quatro paredes, o médico não demonstrava pressa alguma.
Era Verinha pra cá, Verinha pra lá, aquela intimidade enlouquecia o marido
ciumento.
“Ela não havia comentado que era amiga do médico! Safada! Por que não
lhe dissera?”
“Estou exausto, Verinha. Vou chamar meu colega. Só tem um porém, Verinha:
seu problema é que você precisa emagrecer, não há quem aguente! Sinceramente,
estou exausto! Verinha, por que você não faz uma lipo? Você vai ficar
mais gostosinha!”
O marido não aguentou, arrombou a porta e encontrou o médico debruçado
sobre sua Verinha apalpando-lhe as mamas, tentando fazer um exame mais
minucioso já que, sutilmente, ela apresentava um caroço do qual ele não
conseguia saber exatamente a dimensão, para fazer um diagnóstico mais
preciso.
A cabeça cria cada fantasia!
Margot Carvalho
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