Em
nome da beleza
Alguns cuidados básicos, utilizados pelas estrelas de televisão e cinema,
eram copiados, já que o “dindin” era curto.
Iria ela desprezar as dicas das famosas? Jamais!
Levantava-se cedo e o ritual de beleza começava.
Abria a boca e fechava várias vezes, num ritual esquisito que o filho
mais novo ficava observando sem entender.
Diante do espelho, caretas inimagináveis!
O menino, sem graça, não ousava fazer perguntas.
Rodelas de pepino no rosto, quietinha, deitada, sem se mexer.
Vá lá, isso ele já sabia! Pepino era bom para tudo, inclusive para a pele!
Noutros dias fazia uma máscara de mamão, mel e aveia e, num ritual introspectivo,
como se não houvesse ninguém por perto, concentrava-se de verdade!
Sua mãe era realmente bela! A pele queimada, o rosto bem emoldurado, o
cabelo a lhe cair pelos ombros, o manequim trinta e oito, ideal, invejável
para qualquer mulher.
Suas refeições, rigorosamente, estavam dentro do padrão das estrelas.
Adorava arroz e feijão, mas passava a semana inteira fazendo dieta e somente
nos finais de semana se dava ao prazer de comê-los e, mesmo assim, só
uma colherinha.
E lá ia ela trabalhar, impecavelmente arrumada e maquiada.
Em seu caderninho, dicas de beleza. Xuxa: pronunciar o A E I O U várias
vezes, exercitava todos os músculos do rosto. Uma estrela internacional:
mamão, mel e aveia, rosto aveludado, água de coco, para hidratar a pele
e dicas enumeráveis que preenchiam todas as páginas. O caderno? Escondidinho
no fundo da gaveta!
Todas as estrelas não usavam nenhum creme especial e nunca passaram por
um bisturi ou outro procedimento.
Acredita? Se quiser, até pode acreditar!
Lorena não abria mão das dicas. Comprava revista das famosas e ia alternando
ingredientes à sua dieta e beleza.
Passava abacate nos cabelos e eles ficavam sedosos de verdade! Enchia
um prato de rúcula com agrião, alface, tomate e um pedaço de carne ou
peixe.
Pegava sua bicicleta ergométrica e ficava malhando até cansar!
Não envelheceria caindo aos pedaços, isso ela garantia!
Chegara aos quarenta e cinco anos inteirinha! Olhava-se no espelho e via
algumas rugas aparecendo. Dinheiro para plástica? Não tinha!
O que sobrava, às vezes mal dava para fazer uma hidratação na pele. O
jeito era seguir as dicas de beleza das estrelas. Não havia alternativa!
Xuxa e Cláudia Raia eram o máximo para ela e, numa dessas novelas globais,
a Cláudia, personagem, dava uma dica imbatível para manter a pele do rosto
durinha e viçosa. Lógico que ia experimentar!
Chegou a casa com o embrulho, colocou-o no congelador. Fez uma mistura
com argila, passou pelo corpo, ficou por quarenta minutos deitada, sem
se mexer, retirou tudo com óleo mineral.
Com hidratante e açúcar, fez uma mistura, passou pelo corpo para a retirada
das células mortas e novamente hidratou o corpo com o óleo.
Ia experimentar a receita da Cláudia, a personagem.
Com o mesmo ritual, não dispensou as dicas de belezas das famosas. Seu
rosto estava uma seda! Agora o passo final!
Retirou o embrulho do congelador, quebrou as pedras bem miúdas para que
desse o melhor resultado.
Estava sem coragem de fazer o teste de beleza, mas faria assim mesmo.
Olhou para o gelo picado, encheu os pulmões de ar e, num relance de coragem,
enfiou o rosto com vontade na bacia.
O rosto ardia e ela corajosamente aguentava o mais que podia.
Os segundos eram intermináveis, mas com bravura, enfrentava o teste, desafiando
sua falta de coragem!
Não dava mais! Vertiginosamente, sem respiração, não viu alternativa:
ergueu o rosto.
Com espanto, viu que pedrinhas de gelo haviam se aglomerado em sua face
e por dentro das narinas se instalavam, sem permissão, e negavam-se a
sair.
Já estava ficando arroxeada, quando seu filho, desesperado, levou-a para
o banheiro e a colocando-a debaixo do chuveiro, já quase desfalecida.
Faltava-lhe a respiração!
Suas narinas entupidas pelas pedrinhas de gelo não a deixavam respirar!
A ambulância foi chamada e, em desespero, o filho batia-lhe no rosto com
vontade, tentando reanimá-la.
Foi só um susto! Olhava-se no espelho verificando realmente que gelo faz
bem para a pele!
Perguntava-se: teria coragem de fazer “o tratamento” novamente?
Margot Carvalho
Voltar