Entrou
no CTI
Entrou no CTI, viu sua tia toda entubada. Chorou muito. Os médicos lhe
diziam que ela não passaria daquela noite. Nada mais se poderia fazer.
Naquele dia, tivera duas paradas cardíacas, depois de outras anteriores
e seu coração, quase sem sinal, pararia a qualquer momento.
Tivera uma infecção generalizada, depois de uma cirurgia de emergência.
Respirava por aparelhos. O rosto pálido, quase sem vida. Seu corpo franzino
em nada lembrava aquela mulher forte. Pesava apenas trinta e oito quilos.
Sua infância, cheia de mimos e vontades, foi muito feliz e, se não fosse
ela, não chegaria aonde chegou:
professor de Matemática.
Sem filhos, solteirona, dedicou-se somente a ele, lutou e lutou para dar-lhe
educação.
O que fazer? Sentia-se desorientado! Andava pelo corredor do hospital.
Do outro lado da rua, a melhor funerária do bairro.
Analisou cada caixão, procurando um que fosse merecedor de sua querida
tia.
Passara toda a sua vida em função dele. Era hora de retribuir, ela merecia!
“Tão caro!”- falava consigo mesmo. Ia lhe fazer uma bela homenagem!
Depois de muita negociação, chegaram a um consenso: dez prestações pelo
funeral.
Caixão forrado com bom cetim, coroa de flores, etc. Tudo que sua dedicada
tia precisava.
Passou o resto da noite sem conseguir dormir. Pensava na tia-mãe sem parar.
Sua mãe, não a conhecera! Deixado à porta da casa onde fora criado, nunca
soube de onde viera.
Teria que ser forte. Mais uma perda irreparável em sua vida!
O dia amanhecia, quando o carro funerário parou à sua porta. Esquecera
de assinar um dos documentos.
Já que fora incomodado, iria com eles até o hospital.
O trânsito engarrafado o deixava ainda mais nervoso. Já estava arrependido
por estar ali, dentro daquele carro com cheiro de morte.
A mulher que vestiria e maquiaria sua tia falava sem parar, com voz estridente.
Era o que ele não precisava, naquela hora tão dolorosa. O caminho se tornara
mais penoso.
Perdera muito tempo! Coitadinha de sua tia! Estirada na pedra fria do
necrotério! A imagem dantesca não lhe saía da mente!
A papa-defunto desceu do carro, feliz. Dia ganho em tempos difíceis.
Dirigiu-se logo para o necrotério do hospital. Lá não havia ninguém!
Onde estaria o corpo de sua tia-mãe?
Desesperado, correu ao CTI. Espanto! Depois de mais de três meses em coma,
sua tia estava recostada na cama, como se nada tivesse acontecido.
Os médicos não paravam de repetir: “Nunca vi nada igual! Foi surpreendente!
Um milagre!”.
Ficou muito feliz, queria abraçá-la por muito tempo ainda.
Voltou à funerária para que lhe devolvessem o dinheiro.
-Impossível!”–disseram-lhe. O negócio está sacramentado, com documento
assinado. O senhor tem que pagar a dívida. Leve seu caixão para casa!
-Mas eu não quero levar caixão nenhum para casa! Pra que vou querer um
caixão? Quero o meu dinheiro!
À porta, uma multidão se aglomerava por causa dos gritos nervosos.
Levado para o escritório, tentaram entrar num acordo: o dinheiro não se
devolveria.
O acordo que se podia fazer era: caixão pago, guardado para quando dele
precisasse. Pensou, pensou... Concordou.
Nunca pensara na morte, entretanto, com o trato, não lhe saía da cabeça
a indagação: “Quem o usaria?”
Margot Carvalho
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