Extrovertida
Estação repleta, atenção dobrada. Fim da linha. Uma hora em pé, era dose!
Posicionava-se quase sempre na mesma direção. Era macaca velha, sabia
de todos os truques. Também, pudera, depois de tanto tempo!...
Tempo nublado, frio percorrendo-lhe a espinha.
Pretendendo um lugar, teria que ser esperta e isso ela era. Poucas vezes
viajara em pé, durante tantos anos. A briga de força e esperteza era disputada
todos os dias e no final se entreolhavam, sabendo-se vitoriosos.
O trem em movimento balançava a todos, levando-os em direções diversas.
Acontecia o mesmo com o cheiro que os corpos exalavam.
Às vezes, Vivi viajava com sua colega Vanessa que, não tão esperta, ficava
em pé.
Algum abusado sempre a incomodava. Não aguentava mais a situação. Como
pode um homem aproveitar-se da fragilidade da mulher num momento em que
não se pode defender?
Já estava cansada de tanto abuso e naquele dia, furiosa, revoltada, chateada
com a situação, estava em seu extremo. Que não viessem mexer com ela!
Tinha brigado com seu noivo, que não suportava a ideia de alguém sequer
a olhar, quanto mais algum abuso qualquer. Sofria calada.
Encurralada como todos os passageiros, sentia-se aflita com um indivíduo
que se roçava nela, não sabia o que fazer. Sair dali? Impossível, pois
nem lugar para apoiar o pé havia.
Seu rosto, vermelho de raiva, mantinha-se transtornado. Era demais alguém
se aproveitar daquela situação.
O trem parou, algumas pessoas desceram.
Um pouquinho mais vazio, Vanessa empurrava o sujeito com os cotovelos.
Ele, nem sinal de se mancar!
Enfurecida, pegou seu sapato de salto alto, virou-se violentamente e o
enfiou na testa do sujeito.
O homem se esvaía em sangue, gritava de dor, quase perdendo os sentidos.
Todos queriam saber o que tinha acontecido. O sangue escorria sem parar.
Vanessa, apavorada gritava, contando o que acontecera, tentando uma desculpa
para a agressão.
Enfurecidos, partiram para cima dele.
“Tarado, sem vergonha, safado! Se fosse sua filha, ia gostar? Tarado,
sem vergonha, aproveitador!”
O homem gemia, tentando se levantar, mas caía de novo.
Uns chegavam e nem sabiam o que estava acontecendo. E o homem, toda vez
que tentava se levantar, maior quantidade de sopapos levava.
Todos gritavam em coro: “Safado, tarado, aproveitador! Tem que aprender
a respeitar.”
A confusão ia aumentando...
Apavorado, ele não podia se defender da multidão enfurecida, revoltada
e violenta.
Alguém chegou para ajudá-lo com um revólver em punho.
“Para, para, senão atiro!”
E ajuda o coitado a se erguer.
Estava em estado lastimável, cambaleando. Num momento supremo de superação,
retira do bolso e mostra para todos um vasilhame de fezes que levava para
fazer exame.
Mas a história das duas amigas não havia terminado.
Ao final do dia, cansadas, seguiam para a estação.
Vanessa estava chateada com o acontecido. Como podia adivinhar que o suposto
aproveitador era um homem honesto com um vasilhame no bolso?
Passara o dia com sentimento de culpa. Sabia que haviam encaminhado o
homem para o hospital. Na confusão, Vivi a arrastou para longe e aí é
que se sentiu pior ainda. Como estaria ele? Teria sobrevivido a tanta
violência?
Vivi tentava distrair a amiga.
–Vanessa, ele era muito forte. Até conseguiu ficar de pé, depois de tanta
pancada! Vê bem: todos o ajudaram! Fica assim, não! Vai me dizer que nunca
viu acontecer um engano?
O trem parou, vazião. A multidão esperava as portas se abrirem e Vivi
nesse momento sempre se mantinha muito compenetrada. Teria que dar um
salto de quase cento e oitenta graus, com muita precisão.
No momento exato, lançou-se velozmente ao ferro em direção da porta.
Ouviu um grito de horror e também ficou horrorizada com a situação!
Ela e o senhor tentavam manter o equilíbrio.
Olhava-a petrificado, sem ação, numa situação constrangedora.
Sem saber o que fazer ou falar, os dois no meio da confusão. Ela sem graça
e ele cambaleando sem equilíbrio, confuso.
Vivi suava sem parar.
– Menina, o que você está fazendo?
– Desculpe-me, senhor, juro que foi sem querer. Equilibre-se.
– Espere um pouco!
– Não posso, estou sendo arrastado!
–Calma, senhor. Também estou sendo arrastada.
E a multidão, em fúria louca, agravava a situação.
Empurra pra cá, empurra pra lá, todos pareciam acomodados, menos Vivi
e o senhor.
– Desculpe-me, desculpe-me, foi sem querer! Que sufoco! Perdão. Espere
só mais um pouquinho!
– Não vê que não aguento mais? Pare com isso, menina!
– Só um segundo, estão me empurrando! Ufa, até que enfim!
Compondo-se, Vivi ampara com carinho o senhor. Pede o lugar para o rapaz
sentado à sua frente e ajuda-o a sentar-se, devolvendo-lhe as varas de
pescar.
O trem em movimento. Um sujeito, bem atrás dela, começa a incomodá-la.
Vivi não suporta o atrevimento, tenta se mexer e o safado só se aproveitando...
O sangue lhe sobe às ventas e...
Margot Carvalho
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