O
aborto
Completo hoje minha maioridade. De agora em diante, não preciso de ninguém
para me orientar. Já sou bem grandinho e sei muito bem o que faço.
Um dos meus objetivos é morar sozinho, ser dono do meu próprio nariz.
Quero ser livre, fazer o que bem entender, na hora que bem quiser.
Já sou maior, namoro em casa, estou perdidamente apaixonado. Encontrei
a mulher da minha vida.
Sou um pouco desligado. Às vezes fico fora de área, desligadão, desligadão
mesmo.
Falo isso porque um dia desses fui parar num lugar que nem conhecia. Por
distração, peguei o ônibus errado. Quando olhei pela janela, nem sabia
onde estava, paguei o maior mico! Cheguei atrasado, quase no final da
aula porque foi difícil identificar o local onde me encontrava. Claro
que ninguém ficou sabendo! Já pensou a galera saber disso? Seria a maior
zoação!
Quando contei pra mamãe, ela riu de chorar e me chamou de bobalhão. Pode
isso, uma mãe chamar o filho de bobalhão? Fala sério, ninguém pode saber
dessa história!
Sou meio desligado. Vai me dizer que nunca aconteceu com ninguém? Duvido!
Com minha carteira e meu carro, vou sozinho para todo lugar, não preciso
mais do meu pai. Fora isso, sou normal. Gosto de distração, zoar os colegas,
chegar tarde em casa ... Mas, de agora em diante, não vai haver mais nenhum
problema.
A partir de hoje, sou de maior. Estou pensando em como agir daqui por
diante. Já estou preparado.
Quero morar na Zona Sul, dividindo o aluguel. Sabe como é, minha mãe fica
sempre preocupada comigo, enquanto não chego. Assim resolvo o problema:
o meu e o dela.
Vou fazer vestibular e estou estudando bastante, quando quero, é claro.
Não sou muito ligado aos livros, embora seja bastante inteligente. Minha
tia vive falando isso pra todo mundo. Sou o gênio da família. E olha que
todos os médicos queriam que minha mãe fizesse um aborto! Deus não quis
que isso acontecesse e hoje estou aqui completando meus dezoito anos,
graças a Ele e ao médico que se uniu a minha mãe com fé e esperança. Minha
mãe é abençoada porque não houve sequer um probleminha nem comigo nem
com ela durante a gestação e o aborto hoje completa seus dezoito anos.
Às vezes fico pensando como pode isso acontecer; desacreditarem nas pessoas
e na vontade de Deus... Estou aqui, saudável, gostosão, bem bonitão e
agora, dono do meu nariz.
Alguns da família me chamam de “o aborto” principalmente quando apronto
uma daquelas. Já pensou ser conhecido como “o aborto”? Deixa pra lá, às
vezes me dá uma fúria danada, tenho que me controlar pra não sair do sério.
Fico pensando como agir daqui pra frente, já que sou dono do meu próprio
destino.
Ainda não sei bem que caminho tomar. Quando fizer minha inscrição, vou
decidir. Está tão difícil saber o que quero!
Estou muito feliz em rever todas as pessoas aqui reunidas para compartilharem
da minha alegria. É bem verdade que queria uma festa só minha, pra só
fazer a minha festa sem cantar o tão careta parabéns. Ridículo eu, na
frente do bolo com velinha e tudo, mas é o último ano que apago velinhas.
Queria uma comemoração somente com a galera.
Caraca! Que brincadeira! Tem bola colorida e tudo! Fala sério! Toda galera
zoando... Sem contar que vai ter cerimonial! Proibi aquele carro chegando
cheio de bolas, microfone, flores... Que palhaçada!
Nossa! Tenho que me ligar, tá chegando gente pra caramba! Se liga, cara,
vá recebê-los!
Toda galera presente. Sinto-me muito feliz! Melhor esquecer os pequenos
detalhes. Deixa tudo rolar como manda o figurino. O aborto comemora sua
maioridade.
Aquela história de morar sozinho, acho que já passou. Como vou resolver
meus problemas, se nem sei pegar um ônibus?
Como vou tomar minhas decisões sozinho, se nem sei ainda o que quero?
Como vou chegar a casa e não encontrar as pessoas a quem amo?
Acho melhor deixar essa ideia de ser independente.
Desculpem pelas noites mal dormidas que vocês ainda terão que ter.
Tenham certeza, por incrível que pareça, fico até tarde por aí porque
sou jovem. Meu coração também fica preocupado, não faço nada que não seja
normal num jovem com minha idade.
Amo vocês.
Margot Carvalho
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