O
atraso
Durante anos, olhava para o céu e via homens caindo ao ar livre. Não sabia
muito bem do que se tratava e os comparava aos pássaros que voavam, livres.
Foi crescendo e compreendendo que aqueles pássaros nada mais eram que
paraquedistas.
Com o uniforme de gala, o belo rapaz, alto, elegante, de pele queimada,
realizava seu grande primeiro sonho: trocar a bota preta pela marrom.
Honra para os homens machos de verdade, já que muitos não conseguiam passar
pelas difíceis provas de coragem a que eram obrigados.
O quartel estava repleto, gente para todo lado. Enfileirados, todos pareciam
iguais. Suas madrinhas, com muito orgulho, pousariam em suas cabeças a
bela boina de formatura. Celso olhava impaciente e não via sua madrinha.
Compreendia que ela tinha muitos afazeres, mas era o dia de sua formatura!
O dia mais importante de sua vida!
Enquanto isso ...
O carro enguiçou na Avenida. A madrinha e a avó do rapaz, em desespero!
Coitadinho! O Celsinho vai se sentir rejeitado! Buá! Buá! Não paravam
de chorar. Celsinho se formando e elas no trânsito engarrafado, sem poder
fazer nada!
Entraram no ônibus e pediram ao motorista que corresse o mais rápido possível.
Parar para alguém, jamais! Deram uma boa gorjeta ao motorista e o ônibus
ia pela pista seletiva. Acordo fechado com os passageiros: iriam até o
fim da linha, depois retornariam, ganhando o triplo da passagem.
Ao longe, ouviram o término do Hino Nacional! Coração pulsando, iam adiante.
A madrinha olhava, olhava e não conseguia identificar o afilhado.
De repente, mirou bem e saiu correndo em direção ao rapaz.
Não viu o cordão de isolamento e espatifou-se no chão. A bolsa voou longe,
a boina na poça de lama e a lama nela. Todos se voltaram para ajudá-la.
É aquele ali, o da esquerda. Não, não é esse, não! É aquele do lado direito!
Não é esse não... e assim ...
Olhou-se bem no espelho, esfregou o lenço na sujeira, retocou a maquiagem.
Teria que dar um jeito. Vencedora de tantas batalhas, de jeito nenhum
se deixaria abater!
Cruza, descruza as pernas, sapato alto, estilo Luís XV, a morena jogava
seu charme sem pudor. Claro que tudo feito com muita classe!
Um enorme anel de grau reluzia em suas mãos delicadas e bem-feitas. Cabelos
caindo pelos ombros nus, sorriso de fascinação e olho no olho. Hipnotizava
aos que dela se aproximavam.
Autoridades do quartel a cercavam e ela sabia que iria livrar o afilhado
da punição que o aguardava: um mês de reclusão. E tudo por seu atraso,
o rapaz não tinha culpa alguma!
Era só sedução! Homem é fogo! Tudo igual! Olhar profundo, aquele no fundo
do olho, sabe? E todos, sem exceção, a cercá-la!
Vestido vermelho, com o lado esquerdo aberto até o meio das pernas, o
decote ousado, deixando mostrar os seios fartos, puro objeto de desejo,
sedução.
Finalmente colocava a boina, novinha em folha, na cabeça do afilhado,
que a abraçava, emocionado!
O coronel se afastava, piscando um olho e deixando um cartão em suas mãos.
Homem é tudo igual! Sorria satisfeita!
Margot Carvalho
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