O
cartão eletrônico
No ônibus, ela passou o cartão eletrônico, e nada. Mais uma vez, mais
outra. As pessoas atrás dela se aglomerando, e, pressionada, com um rosto
colado à altura de seu bumbum, a advogada ficava mais aflita ainda.
Todos tentavam ajudá-la.
– Retira o plástico, está atrapalhando na leitura!
– Esfrega na roupa! Não passou? Vira do lado contrário e...
E ela, encurralada e nervosa com o rosto do passageiro do degrau abaixo
colado ao seu bumbum. Só que, naquela situação, não havia como ficar em
outra posição nem podia chamar-lhe a atenção. Que constrangimento!
Não era proposital! O que podia ele fazer, se ninguém conseguia se mexer?
Alguém do outro lado lhe pediu a bolsa. O ônibus mobilizado, pois todos
queriam resolver a situação! Eis que se ouve uma voz bem alto gritando:
– Peraí, gataça, vou resolver teu “pobrema”!
Pega o bilhete da moça, esfrega-o em sua calça jeans e tenta, tenta. Esfrega,
esfrega e nada. Querendo agradar, desagradando, o homem tentava impressionar.
Era uma questão de honra. Como ficar desmoralizado diante da gataça?
– Manera aí, cara! Tu vai quebrar o cartão da moça!
Outro grita mais alto ainda:
– É isso mermo! Tá querendo aparecer?
A confusão se formando, todos, sem exceção, tentando resolver o problema.
Um moreno chega mais perto e lhe diz ao ouvido:
– Eu sei uma maneira infalível de resolver teu problema.
– Então me oriente. O que fazer, por favor?
– Lambe o cartão!
– O quê? Lamber o cartão? Tem...tem certeza que dá certo?
– Claro que tenho. Lambe o cartão!
A advogada coloca o cartão entre as mãos, envergando a cabeça, escondendo-se
dos ansiosos olhares.
Rubra de vergonha, afasta as mãos e, sem olhar para ninguém, passa o cartão
molhado de saliva, várias vezes. Nada! Que vergonha! Não conseguia mais
levantar os olhos.
Atrasando o lado de todos e muito constrangida, recebeu a seguinte proposta:
– Deixe que os outros subam. Você vai aí na frente, não tem outro jeito!
E, por favor, desça para dar passagem aos outros.
Problema parcialmente resolvido, o ônibus segue em frente.
Em cada parada, a moça desce e sobe.
Cansadíssima, de saltos altos, pensava em como levar o dia exaustivo que
tinha pela frente. Sua bolsa nas mãos de um passageiro que nem conhecia,
mas alguém teria que segurá-la. Como iria descer e subir a todo momento
com sua pesada bolsa e o vestido longo? Já lhe bastavam os saltos altos.
Ocupava um cargo de destaque na empresa e teria que fazer o diferencial
entre os outros funcionários. Apresentava-se à altura!
E, no desce e sobe, muito cansada, chega a seu destino.
Com uma salva de palmas dos passageiros, retribui com um sorriso amarelo
desconcertante!
Ufa, enfim vencera o primeiro desafio do dia!
Abre sua bolsa para ligar para a mãe e a surpresa: cadê seu telefone?
Desapareceu!
Não acredita no que está acontecendo. Comprara o mais caro da loja. E
nem tinha começado a pagar!
Vai ao banheiro lavar o rosto, não comenta o fato com ninguém.
Desce junto com o grupo para almoçar. Pega seu cartão para leitura e não
acredita. O cartão não passa de jeito algum. Também já era demais. Iria
ficar sem almoçar?
As lágrimas rolavam em seu rosto. Todos, muito assustados, a confortavam.
Não ficaria sem almoçar, não!
– É que, é que, é que, é...
Tentava falar, mas não conseguia.
Dividiram a comida, foram muito solidários. Confortavam-na, já que soluçava
sem parar.
“Você é tão sensível, doutora! Chorar só porque seu cartão não passou
na leitura?!”
Margot Carvalho
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