Sexta-feira
13
Salto alto, maquiagem... Prontas para a nova aventura, as duas sócias
embarcaram no trem rumo à Central do Brasil.
Cada uma seguindo caminho diferente: Justiça Trabalhista, Justiça Federal.
A mais jovem, elegantemente vestida, olhava o relógio a toda hora. Não
poderia se atrasar sequer um minuto.
Dirigia-se apressada à escada rolante.
Apoiou-se no corrimão. Sentiu sua mão direita aprofundar-se em algo pegajoso
e nojento; olhou e o terror apoderou-se dela.
Apavorada, correu procurando um banheiro para lavar-se e, de repente,
espatifou-se no chão. O salto do sapato do pé direito tinha quebrado.
A multidão aglomerando-se a seu redor, tentando ajudá-la, mas a advogada
caiu em choro compulsivo.
De repente, viu-se num banheiro, sabonete e bastante água.
As lágrimas lavavam seu rosto. Olhava para o relógio: não podia se atrasar.
Cheirava sua mão e seu estômago enrolava.
Com um pé mais alto que o outro, ia caminhando apressadamente. Não poderia
perder a audiência. Ajeitando-se, tentando tirar resíduos da queda, ia
pensando: como se apresentar diante de seu cliente daquele jeito?
Já no elevador, com o pequeno pé esquerdo no mesmo nível que o direito,
sentia-se muito incomodada, mas não havia outro jeito. Teria que enfrentar
o problema com dignidade.
Chegou à audiência quando o relógio marcava exatamente 11 horas.
Seu cliente, ao vê-la, abriu um largo sorriso.
Enfrentou a situação da melhor forma possível, como se nada tivesse acontecido.
Causa ganha, obstáculo vencido, ia mancando pela rua procurando uma sapataria.
Ligou para a amiga. Telefone desligado.
Decidiu passar o tempo, parada numa esquina movimentada.
Não demorou muito, parou um carro com um bonitão, que lhe perguntou:
– Gostosona, quanto é o seu programa?
Indignada, respondeu com um palavrão. Espantou-se, porque palavrões não
faziam parte de seu vocabulário.
Decidiu sair do local, com certeza ponto de meninas de programa.
Soluçava sem parar. Telefonava para a amiga. Telefone desligado.
Entrou numa igreja, fez fervorosamente suas orações. Tirou os sapatos,
esticou as pernas, descansou. Ligou novamente para a amiga, que atendeu.
Relatou o acontecido, aos prantos. Do outro lado a amiga pedia que ficasse
calma, tudo ia se resolver da melhor forma.
Só havia um porém: não queria que a amiga lhe pousasse a mão direita de
maneira alguma. Sentia o mau cheiro até por telefone, tinha o estômago
extremamente sensível.
Continuou seu caminho ao encontro da sapataria indicada.
Suas pernas estavam tão cansadas! Não pousar a mão direita, ia pensando.
Sentiu algo estranho, olhou para trás e viu, na calçada, o salto do sapato
do pé esquerdo.
Sexta-feira 13. Pensava ser apenas superstição! Não era, não! Aprendera
a lição!
O que teria por vir? Estava apavorada!
Caminhando, sem os saltos, ia ao encontro da amiga.
Olhava para os lados, receosa. Seus pés doíam demais. Com o coração sobressaltado,
cheirava a mão direita, cheiro insuportável de...
Entrou na sapataria, avistou a amiga, correu ao seu encontro, estendeu
a mão direita, a amiga esquivou-se violentamente.
Todos se viraram no mesmo instante para olhar o corpo estendido no chão.
Margot Carvalho
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